Mais um final de semana se aproxima, e esse têm um feriado junto pra prolongar a folga. Você já está fazendo planos, convoca os amigos pra uma caminhada nas montanhas. Consulta a previsão de ondas e verifica se tem parafina. Procura em um site a programação de rafting na base mais próxima de sua cidade. A pergunta que você não fez é: Por que?
A vida cotidiana em um mundo urbanizado parece colocar um véu sobre a resposta. Nossos hábitos diários carregados de celulares, computadores, automóveis e uma realidade virtual que emerge de trás da tela de 42 polegadas da sala, obscurecem a própria natureza humana. Pesquisas modernas da neurociência esclarecem sobre a necessidade humana de se manter conectado com a natureza. Para Pinker (1999), Alguns estudos afirmam que a mente humana encontrou a maturidade acerca de mais de trinta mil anos atrás e não recentemente.
Esse aspecto leva a um entendimento, o de que nossa herança genética, em termos do desenvolvimento cerebral, nos dá quase que em totalidade, uma preparação prévia para solucionar problemas ligados a realidade de quando vivíamos na idade da pedra, pois na linha do tempo da evolução humana, a era moderna da industrialização representa uma ínfima porcentagem de nosso período evolutivo. Estaríamos então amplamente mais conectados para resolver problemas de ordem de sobrevivência como caçar, fugir e se abrigar, atividades estas, ligadas ao meio ambiente natural, do que preparados para lidar com situações do dia a dia urbano.
O meio ambiente proporciona ao homem a chance para aventurar-se. Para Vidon (2004) essa é a oportunidade de romper com o artificialismo do cotidiano. O autor nos mostra que o nosso meio de vida urbano exige que nos preocupemos exclusivamente em subsistir, privilegiando a segurança e a manutenção de nossas necessidades básicas, minimizando a aventura e reduzindo ou eliminando o risco.
A terminologia “esporte de aventura” passou a ser associada a um conceito de esporte radical, essa confusão criou a falsa idéia de que a natureza e as atividades exercidas com ela são exclusividade de pessoas fisicamente superiores, bem preparadas e fortes. Para o autor seria esse contexto o principal motivador do afastamento do homem da natureza. Para conectar a aventura e o risco com a procura humana por desenvolvimento pessoal o autor afirma que:
Entretanto, há momentos em que as pessoas se colocam em situações de risco propositadamente, esses riscos podem ser físicos, financeiros, sociais, espirituais ou intelectuais e é assumido para que o indivíduo alcance algum objetivo, e nunca pela procura do risco em si mesmo. A aventura passa a ser sempre um meio para atingir algo que não pode ser alcançado de outra maneira. (VIDON,2004, p. 135).
Quando tentamos lembrar de coisas que fizemos, freqüentemente as lembranças que nos vem à mente são aquelas em que coisas diferentes aconteceram. Momentos em que não tínhamos total controle da situação. Esses momentos são fortes geradores de emoções e são essas emoções que potencializam o registro das experiências em nossa memória. A emoção é um traço inerente ao ser humano e nada melhor para potencializar as emoções como a presença de outras pessoas durante as atividades. Na presença de outros nos sentimos mais fortes ou mais fracos, mais capazes ou mais vulneráveis. É essa curva nas emoções, levando-nos para além de nossa zona de conforto, que potencializa o registro na memória dos eventos que vivenciamos.
As atividades de aventura geram também um efeito fisiológico que traz bem estar tanto físico como psicológico. Nas aventuras mais emocionantes o corpo libera uma leve descarga de catecolaminas, adrenalina e nora adrenalina, hormônios que aumentam a excitação. A resposta fisiológica natural do organismo é a busca do equilíbrio proporcionando uma sensação de prazer e relaxamento. Em atividades de longa duração como a caminhada o remo e o surf, o corpo produz naturalmente cerotonina e endorfina que provocam igualmente sensação de prazer.
Agora que você já sabe porque é tão estimulante participar de alguma aventura, não deixe de aproveitar todas as oportunidades que surgirem. Cada vez que você estiver em algum lugar cercado pelo meio ambiente natural, tenha a certeza que ali existe uma possibilidade de aprendizagem. Não há nada mais revelador do que observar a nós mesmos quando estamos um pouco mais vulneráveis na presença da mãe natureza.
No próximo final de semana não pense duas vezes. Convoque seus amigos, convide seu namorado, arraste sua esposa, leve os seus filhos, pois agora você já sabe porque praticar atividades de aventura.
Referências:
PINKER, Stephen. Como a mente funciona. Trad. L. T. Motta. São Paulo: Companhia das Letras 1999.
VIDON, Marco. A aventura e o processo de aprendizagem. In: DINSMORE, Paul Campbell (Org.). Treinamento Experiencial ao Ar Livre. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2004. P. 133-138.
MAURO DAL POSSO
Graduado em Educação Física – UFPR
Instrutor de Rafting
Praticante de esportes de aventura desde 1998